terça-feira, 29 de maio de 2007

Memória

Faz hoje três anos que morreste. Um dia disse que quando o meu peito se enchesse de ar pela última vez era tua, a imagem que eu veria pela sua incontestável beleza, pela sua inviolável força, pelo teu imperturbável encanto, e nada disso mudou. Tu que és a Rocha, sobre a qual me ergo e me redescubro em cada pedra do meu caminho, em cada dor, em cada esperança. Relembro-te mais uma vez, com a tua silhueta e a tua sombra gigantesca deitada sobre um campo de milho enquanto atiravas tiros a um Sol a nascer, roubando-lhe uma promessa de Luz que ofusca e aquece. Um Caçador não se esquece, no som que nos desperta de dentro de nós mesmos, num tiro de carabina em manhãs de verão.

É estranha a forma como nunca nos esquecemos de quem amamos. Não há um só dia em todos estes três anos que não me tenha lembrado de ti e sei que será assim para o resto da minha vida, e essa saudade que é tão nossa, é-me querida como o chão onde se estendem as minhas raízes. Quando eu era muito pequena gostava de andar de bicicleta e de abrir os braços enquanto descia aquele velho declínio de terra na mata, e sem querer passava com as mãos por arbustos cujas folhas eram feitas de picos que se enterravam na minha pele. Lembro-me de à noite me doerem as mãos e de tu me pegares ao colo, e com um sorriso enorme daquele que silencia a dor das crianças tirares com uma pinça cada um dos picos. E de me sussurrares ao ouvido: está a ver, menina, a dor é sempre passageira. Tu que tinhas ainda estilhaços de metal nas pernas, que te recordavam a Guerra e o teu patriotismo tão característico e inflamado em discursos que faziam tremer o granito das pedras, da velha quinta feita de heras.

O teu abraço quando eu caía desajeitada da escadaria, que me envolvia completamente na tua grandeza é uma memória que me ficara para sempre marcada em todos os pequenos pontos que constituem o que fui e o que sou. A tua voz rouca e profunda que contava histórias antigas dos que tinham vivido antes de nós e que mesmo assim viviam em nós, em cada gota do nosso sangue e dizias tu, em cada acto das nossas existências.
Nunca te esqueças de quem és. Nunca te esqueças dos que foram antes de ti. Honra-os como eles o fizeram por ti, mesmo antes de ti mesma.

Amar-te é uma honra de que nenhum ser humano é suficientemente digno, pela dignidade com que bebeste a vida em cada sopro de intensidade, em cada gesto de paixão pelo que acreditavas. Pelo que nós acreditamos. Ensinaste-me tantas coisas que na cegueira como corre a vida sem a vermos, tantas vezes esqueci, e tantas vezes me recordei, ao relembrar a imponência da tua simples presença. Perdoa-me ter sido tantas vezes negligente com a tua herança. Perdoa-me não ter-te honrado sempre, nos meus actos, nas minhas decisões, nos meus desejos. Tu que és o fim de tudo o que acredito, a peça final do que sonho ser na rectidão em que o teu sangue se prende ao meu.
Um beijo com amor,
B.L

2 comentários:

Unknown disse...

Este texto tocou-me profundamente, a melhor maneira de honrares essa "herança" é lembrares-te dessa pessoa, enquanto te lembrares dela ela continuará viva, quanto mais nao seja no teu coraçao, acho que ele esteja onde estiver tem orgulho em ti...

SF

D stands for Darkness. M stands for Music. disse...

Dor Luminosa.

Sempre intensa.

Kiss,
DM