No meu caminho de retorno do trabalho, quebrando a minha rotina, decidi ir fumar o meu cachimbo num pequeno café onde ocorrem verdadeiros solilóquios por vagabundos. Ao sentar-me, decidi colocar-me em postura de reflexão e observação perante toda uma bela praça que se estendia à minha frente.
Ao olhar para toda uma multidão que passava, ora me deparava com harmoniosas senhoras de saltos e sacos recheados, ora para uma criança que fogosamente comia um gelado como se o amanhã não existisse ou mesmo o desgraçado do sem abrigo que inutilmente mostrava a sua mão imunda a todos os que encontrava.
Nesse momento – e em companhia de todo este cenário – surgiu na minha cabeça uma pergunta que até hoje não obtive uma resposta: até que ponto toda esta praça – paradigma da humanidade - não passará de uma verdadeira passerelle, onde em vez de roupas se passam máscaras?
Fecho os olhos e permito-me navegar até outros cenários, liberto a minha imaginação das amarras quotidianas que lhe coloco para não me deixar perder nos labirintos de mim próprio. E qual dança perpetua vejo-me sentado num antigo teatro, sem o fausto dos grandes mas antes com aquela utilitariedade básica. Algumas cadeiras de madeira oferecem descanso aos seus espectadores enquanto a madeira de um palco velho range sobre o som apressado das pessoas que correm atrás dele mesmo antes de as cortinas de veludo gasto se abrirem. Não há qualquer paisagem reflectida na parede que sirva de contextualização a peça que assisto, apenas a tinta acinzentada das paredes desta sala, e como um louco acredito que a inexistência de beleza naquela sala apenas é pronuncio da sua veracidade: já não há beleza na fatalidade das vidas comuns.
Entram os actores, gente feita de gente, a velha que puxa a criança chorosa e suja pela rua do palco, o homem que fuma o seu cachimbo obscuro numa gabardine cinzenta e que parece contar os seus próprios passos qual não é o cântico monocórdico que exala da sua passagem. A mulher ou simples rapariga que deixa cair a mala no chão e que na sua preocupação de apanhar todos os seus pequenos objectos se esquece do vento que corre sobre ela fazendo esvoaçar a sua saia vermelha e dando uma estranha felicidade momentânea ao velho que se passeia atrás dela e cujos olhos observam atentamente a curvatura das suas coxas, flamejantes de desejo reprimido. No centro mas atrás de todos eles está uma estranha criança, que talvez pouco deva a infantilidade das crianças, que sorri olhando para todos os que passam e cujos olhos embatem nos meus, numa espécie de confidencia, numa promíscua certeza que também eu faço parte deste baile de mascaras e que a semelhança deles, também eu sou um mero actor da minha vida.
De repente reparo que a criança para quem estou a olhar é a minha própria pessoa. Lembro-me perfeitamente daquele dia, lembro-me perfeitamente da dor que me deu aquele dia imbecil e de como aprendi que a vida não passa de uma bela peça num teatro poeirento, onde os protagonistas somos nós próprios.
Voltando ao dia em questão, ali estava eu, atrás de toda aquela multidão, com o meu clarinete limpo e o meu laço ao pescoço arranjado esperava ansiosamente que todo aquele alvoroço acalmasse para poder subir ao palco e – orgulhosamente – mostrar à multidão e aos meus pais o meu progresso de mais de 3 anos de treinos. Porém, ao subir ao palco e ao percorrer com o olhar cada banco poento e cada pessoa aí sentada, invadiu-se em mim um sentimento de revolta e tristeza que até bastante tarde protelaram desaparecer: os meus pais não apareceram no meu recital. Talvez tivessem demasiados ocupados com questões empresariais que me passavam ao lado. Mas a sua promessa de não faltarem e a mentira que daí resultou marcou e moldou, em muito, toda a minha personalidade.
Nesse momento, todas as pessoas que estavam a olhar para mim enquanto tocava, transformaram-se na minha visão. Já não eram o meu desejado auditório mas um grupo de pessoas que eu desconhecia e ao mesmo tempo odiava. desprezava-os por uma simples razão: por serem humanos.
Seremos todos assim? Serão as marcas da nossa infância tão insuportavelmente ditadoras sobre nós mesmos, ao ponto de nos recriarem em cada recordação? Recordo cada uma das minhas cicatrizes, cada pedaço do meu passado nas suas ínfimas particularidades que me conferem esta angústia e este desprezo pelo Homem. Nietzsche teria sem dúvida razão é urgente é necessário ser-se superior a Humanidade em força, altura de alma e em desprezo!
Ergue-se em mim essa revolta tão antiga que a tomo como parte essencial do meu carácter subversivo, sou eu o mais normal dos homens e o mais lunático dos seus loucos. Permiti e alimentei a dicotomia entre a minha aparência e a minha verdadeira tendência, a loucura é a minha única forma de transcendência. E podia eu estar em maior sintonia com a restante Humanidade? Se há deuses, se existem santos ou mesmo pequenos demónios, todos eles deverão ser loucos na sua paixão pelo Homem.
Seja eu o pior dos demónios, o mais devorador dos Saturnos que arranca a carne aos ossos dos seus filhos, criaturas da minha mente, herdeiros dos caminhos obscuros da minha parca existência. Odeio-vos! Actores da vida banal. Queimem-se em todas as praças luminosas deste mundo de trevas, os espíritos dos vulgares. E que das suas ossadas sejam criadas novas igrejas, catedrais ao principio único da salvação pela alienação das sensações. Agora que me deixo domar pelas marés irregulares do meu temperamento sanguíneo, seja este cálice de vinho, o sangue onde o meu corpo se entrega aos devaneios da minha alma.
Ao olhar para toda uma multidão que passava, ora me deparava com harmoniosas senhoras de saltos e sacos recheados, ora para uma criança que fogosamente comia um gelado como se o amanhã não existisse ou mesmo o desgraçado do sem abrigo que inutilmente mostrava a sua mão imunda a todos os que encontrava.
Nesse momento – e em companhia de todo este cenário – surgiu na minha cabeça uma pergunta que até hoje não obtive uma resposta: até que ponto toda esta praça – paradigma da humanidade - não passará de uma verdadeira passerelle, onde em vez de roupas se passam máscaras?
Fecho os olhos e permito-me navegar até outros cenários, liberto a minha imaginação das amarras quotidianas que lhe coloco para não me deixar perder nos labirintos de mim próprio. E qual dança perpetua vejo-me sentado num antigo teatro, sem o fausto dos grandes mas antes com aquela utilitariedade básica. Algumas cadeiras de madeira oferecem descanso aos seus espectadores enquanto a madeira de um palco velho range sobre o som apressado das pessoas que correm atrás dele mesmo antes de as cortinas de veludo gasto se abrirem. Não há qualquer paisagem reflectida na parede que sirva de contextualização a peça que assisto, apenas a tinta acinzentada das paredes desta sala, e como um louco acredito que a inexistência de beleza naquela sala apenas é pronuncio da sua veracidade: já não há beleza na fatalidade das vidas comuns.
Entram os actores, gente feita de gente, a velha que puxa a criança chorosa e suja pela rua do palco, o homem que fuma o seu cachimbo obscuro numa gabardine cinzenta e que parece contar os seus próprios passos qual não é o cântico monocórdico que exala da sua passagem. A mulher ou simples rapariga que deixa cair a mala no chão e que na sua preocupação de apanhar todos os seus pequenos objectos se esquece do vento que corre sobre ela fazendo esvoaçar a sua saia vermelha e dando uma estranha felicidade momentânea ao velho que se passeia atrás dela e cujos olhos observam atentamente a curvatura das suas coxas, flamejantes de desejo reprimido. No centro mas atrás de todos eles está uma estranha criança, que talvez pouco deva a infantilidade das crianças, que sorri olhando para todos os que passam e cujos olhos embatem nos meus, numa espécie de confidencia, numa promíscua certeza que também eu faço parte deste baile de mascaras e que a semelhança deles, também eu sou um mero actor da minha vida.
De repente reparo que a criança para quem estou a olhar é a minha própria pessoa. Lembro-me perfeitamente daquele dia, lembro-me perfeitamente da dor que me deu aquele dia imbecil e de como aprendi que a vida não passa de uma bela peça num teatro poeirento, onde os protagonistas somos nós próprios.
Voltando ao dia em questão, ali estava eu, atrás de toda aquela multidão, com o meu clarinete limpo e o meu laço ao pescoço arranjado esperava ansiosamente que todo aquele alvoroço acalmasse para poder subir ao palco e – orgulhosamente – mostrar à multidão e aos meus pais o meu progresso de mais de 3 anos de treinos. Porém, ao subir ao palco e ao percorrer com o olhar cada banco poento e cada pessoa aí sentada, invadiu-se em mim um sentimento de revolta e tristeza que até bastante tarde protelaram desaparecer: os meus pais não apareceram no meu recital. Talvez tivessem demasiados ocupados com questões empresariais que me passavam ao lado. Mas a sua promessa de não faltarem e a mentira que daí resultou marcou e moldou, em muito, toda a minha personalidade.
Nesse momento, todas as pessoas que estavam a olhar para mim enquanto tocava, transformaram-se na minha visão. Já não eram o meu desejado auditório mas um grupo de pessoas que eu desconhecia e ao mesmo tempo odiava. desprezava-os por uma simples razão: por serem humanos.
Seremos todos assim? Serão as marcas da nossa infância tão insuportavelmente ditadoras sobre nós mesmos, ao ponto de nos recriarem em cada recordação? Recordo cada uma das minhas cicatrizes, cada pedaço do meu passado nas suas ínfimas particularidades que me conferem esta angústia e este desprezo pelo Homem. Nietzsche teria sem dúvida razão é urgente é necessário ser-se superior a Humanidade em força, altura de alma e em desprezo!
Ergue-se em mim essa revolta tão antiga que a tomo como parte essencial do meu carácter subversivo, sou eu o mais normal dos homens e o mais lunático dos seus loucos. Permiti e alimentei a dicotomia entre a minha aparência e a minha verdadeira tendência, a loucura é a minha única forma de transcendência. E podia eu estar em maior sintonia com a restante Humanidade? Se há deuses, se existem santos ou mesmo pequenos demónios, todos eles deverão ser loucos na sua paixão pelo Homem.
Seja eu o pior dos demónios, o mais devorador dos Saturnos que arranca a carne aos ossos dos seus filhos, criaturas da minha mente, herdeiros dos caminhos obscuros da minha parca existência. Odeio-vos! Actores da vida banal. Queimem-se em todas as praças luminosas deste mundo de trevas, os espíritos dos vulgares. E que das suas ossadas sejam criadas novas igrejas, catedrais ao principio único da salvação pela alienação das sensações. Agora que me deixo domar pelas marés irregulares do meu temperamento sanguíneo, seja este cálice de vinho, o sangue onde o meu corpo se entrega aos devaneios da minha alma.
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