Faz hoje três anos que morreste. Um dia disse que quando o meu peito se enchesse de ar pela última vez era tua, a imagem que eu veria pela sua incontestável beleza, pela sua inviolável força, pelo teu imperturbável encanto, e nada disso mudou. Tu que és a Rocha, sobre a qual me ergo e me redescubro em cada pedra do meu caminho, em cada dor, em cada esperança. Relembro-te mais uma vez, com a tua silhueta e a tua sombra gigantesca deitada sobre um campo de milho enquanto atiravas tiros a um Sol a nascer, roubando-lhe uma promessa de Luz que ofusca e aquece. Um Caçador não se esquece, no som que nos desperta de dentro de nós mesmos, num tiro de carabina em manhãs de verão.
É estranha a forma como nunca nos esquecemos de quem amamos. Não há um só dia em todos estes três anos que não me tenha lembrado de ti e sei que será assim para o resto da minha vida, e essa saudade que é tão nossa, é-me querida como o chão onde se estendem as minhas raízes. Quando eu era muito pequena gostava de andar de bicicleta e de abrir os braços enquanto descia aquele velho declínio de terra na mata, e sem querer passava com as mãos por arbustos cujas folhas eram feitas de picos que se enterravam na minha pele. Lembro-me de à noite me doerem as mãos e de tu me pegares ao colo, e com um sorriso enorme daquele que silencia a dor das crianças tirares com uma pinça cada um dos picos. E de me sussurrares ao ouvido: está a ver, menina, a dor é sempre passageira. Tu que tinhas ainda estilhaços de metal nas pernas, que te recordavam a Guerra e o teu patriotismo tão característico e inflamado em discursos que faziam tremer o granito das pedras, da velha quinta feita de heras.
O teu abraço quando eu caía desajeitada da escadaria, que me envolvia completamente na tua grandeza é uma memória que me ficara para sempre marcada em todos os pequenos pontos que constituem o que fui e o que sou. A tua voz rouca e profunda que contava histórias antigas dos que tinham vivido antes de nós e que mesmo assim viviam em nós, em cada gota do nosso sangue e dizias tu, em cada acto das nossas existências.
Nunca te esqueças de quem és. Nunca te esqueças dos que foram antes de ti. Honra-os como eles o fizeram por ti, mesmo antes de ti mesma.
Amar-te é uma honra de que nenhum ser humano é suficientemente digno, pela dignidade com que bebeste a vida em cada sopro de intensidade, em cada gesto de paixão pelo que acreditavas. Pelo que nós acreditamos. Ensinaste-me tantas coisas que na cegueira como corre a vida sem a vermos, tantas vezes esqueci, e tantas vezes me recordei, ao relembrar a imponência da tua simples presença. Perdoa-me ter sido tantas vezes negligente com a tua herança. Perdoa-me não ter-te honrado sempre, nos meus actos, nas minhas decisões, nos meus desejos. Tu que és o fim de tudo o que acredito, a peça final do que sonho ser na rectidão em que o teu sangue se prende ao meu.
Amar-te é uma honra de que nenhum ser humano é suficientemente digno, pela dignidade com que bebeste a vida em cada sopro de intensidade, em cada gesto de paixão pelo que acreditavas. Pelo que nós acreditamos. Ensinaste-me tantas coisas que na cegueira como corre a vida sem a vermos, tantas vezes esqueci, e tantas vezes me recordei, ao relembrar a imponência da tua simples presença. Perdoa-me ter sido tantas vezes negligente com a tua herança. Perdoa-me não ter-te honrado sempre, nos meus actos, nas minhas decisões, nos meus desejos. Tu que és o fim de tudo o que acredito, a peça final do que sonho ser na rectidão em que o teu sangue se prende ao meu.
Um beijo com amor,
B.L
2 comentários:
Este texto tocou-me profundamente, a melhor maneira de honrares essa "herança" é lembrares-te dessa pessoa, enquanto te lembrares dela ela continuará viva, quanto mais nao seja no teu coraçao, acho que ele esteja onde estiver tem orgulho em ti...
SF
Dor Luminosa.
Sempre intensa.
Kiss,
DM
Enviar um comentário