quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Alucinação das 6h da manhã

Há para cada mulher um único homem e para cada homem uma multiplicidade de mulheres. Talvez porque para a mulher os homens que por ela passam são resquícios do Homem, esse morto-vivo cujos restos mortais repousam em qualquer sepultura anónima e cujo espírito transgride o tempo e o espaço, na forma como se faz recordar nos traços específicos dos demais homens. Mas para os homens apenas na diversidade das mulheres se tornam capazes de compreender o que a Mulher já sabe: cada uma, nada mais é que um órgão essencial na anatomia perfeita d’Ela.
Tal é a teoria pouco racional que me atravessa o espírito enquanto me deixo adormecer. Meditar sobre as complexas ou superficiais relações humanas nunca foi passatempo que me preenchesse, mas tendo em conta os últimos acontecimentos da minha, até agora, pacata vida, sou puxada para esse corcel alucinado de teorias vazias. Talvez o meu amigo David T.P tenha razão e a minha vida de facto desse mesmo um péssimo filme indiano. Enfim…

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

...

São sete horas e um quarto e o sol começa a pôr-se, no fim de mais um dia saboreio o que morreu, apanhando do chão os seus restos mortais. Ontem o dia nasceu com sede de sangue, chegam-me notícias de gente que morreu. Todos eles novos, todos eles mais ou menos com a minha idade, todos eles perfeitos desconhecidos para mim. Ontem três amigos meus choraram a morte de amigos seus. Deveria sentir que a morte de um amigo de um amigo meu, é para ser chorada também por mim? São anónimos na forma como desconheço o seu rosto. Não sei recordar imagens que não preenchem a minha memória. Contra a dor deles não há em mim nada que os possa consolar. Quem pode consolar a dor dos que perdem? Não há nada que a silencie. Na vigília da noite deixei-me ficar à sombra das suas lamentações, na companhia de um cigarro e do vento gélido que entrava pelo meu quarto através da janela entreaberta.
Um pensamento bizarro atravessou-me a mente. Todos esses mortos gostavam de viver e beberam da vida em goles rápidos e vertiginosos, sempre a par das novidades do cinema, da música, da literatura. Não vão mais saborear novos acontecimentos, tudo o que a partir de agora será escrito será sem eles. Na sua ausência. Ao abandonarem esta peça teatral são espectros que nada devem ao desenrolar da vida que tanto os apaixonou.
Isso é estranho, quase incompreensível, quase insustentável. O mundo devia párar. Como uma contradição que põem em causa o movimento perpétuo do universo.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

O Orfeu no Paraíso


Da última estante da biblioteca do meu pai, um livro com título apelativo olha-me: Orfeu no Paraíso, de Luigi Santucci. Vencedor do prémio Campello em 1967. Folhei-o tentando encontrar nele algum interesse que me prendesse à sua leitura. Quando encontro esta frase: “Só acaba suicida quem não crê no seu passado, não quem não crê no seu futuro”. É uma doce contradição. A maioria das pessoas acredita que o suicida é o fulano sem esperança. Nu de sonhos e projectos. Mas como pode um homem racional ter esperança, quando está consciente das contrariedades e fragilidades do tempo que ainda não se escreveu? Alimentamo-nos dessa esperança, fermentados na utopia de que a imaginação é a visão da alma. A luz que penetra o desconhecido e o revela, amarrando-o a possibilidade do presente.
Concordo com Santucci. O suicida é o que despreza o seu passado. O sentido das suas raízes na alienação do seu presente. Preso a memórias e eternamente perdido na imortalidade da recordação. É doloroso sentir. Mas é mais penoso recordar o que se sentiu, o que se perdeu. Talvez a única fuga a esse jogo perpétuo, seja a morte. Mas já não estará morto aquele que recorda?

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Four Winds - Bright Eyes

Your class, your caste, your country, sect, your name or your tribe
There's people always dying trying to keep them alive
There's bodies decomposing in containers tonightIn an abandoned building where
Squatters made a mural of a Mexican girl
With fifteen cans of spray paint and a chemical swirl
She's standing in the ashes at the end of the world
Four winds blowing through her hair
But when great Satan's gone... the Whore of Babylon...
She just can't sustain the pressure where it's placed
She caves
The Bible's blind, the Torah's deaf, the Qur'ans mute
If you burn them all together you get close to the truth still
They're pouring over Sanskrit on the Ivy League moons
While shadows lengthen in the sun Cast all the school and meditation built to soften the times
And hold us at the center while the spiral unwindsIt's knocking over fences crossing property lines
Four winds, cry until it comes
And it's the sum of man
Slouching towards Bethlehem
A heart just can't contain all of that empty space It breaks.
It breaks. It breaks
Well I went back, I rented Cadillac, a company jet
Like a newly orphaned refugee retracing my steps
All the way to Cassadaga to commune with the dead
They said, "You'd better look alive"And I was off to old Dakota where a genocide sleeps
In the Black Hills, the Badlands, the calloused eastI buried my ballast, I made my peace
The four winds, leveling the pines
But when great Satan's gone... the Whore of Babylon...
She just can't remain with all that outer space She breaks. She breaks. She caves. She caves.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Anatomia da Queda



“Fulano tal está muito mal, está com uma depressão” – Já perdi a conta, às vezes, que ouvi esta frase. Sobre as mais diversas pessoas nas mais anedóticas situações. Por vezes, vejo os depressivos arrastarem-se pesarosamente, ar meio cadavérico, entre o meio das gentes indiferentes. Alguns pedem socorro na aflição da queda, outros deixam-se cair. Prefiro os segundos. São mais engraçados. Mas só se tornam interessantes ou não, na intensidade com que deixam morrer em si, cada traço de pequena humanidade.
Raramente encontro quem o faça. Atordoados com a possibilidade de ouvirem o seu crânio bater com força no abismo, agarram-se como pequenos parasitas as paredes do seu poço. Deixam-se apodrecer lá. Sem nunca chegarem ao estado cruel de putrefacção. A dignidade reside na capacidade de se viver o limbo e cair nos infernos. Com ousadia suficiente para depois se elevarem dele. Fortes. Diferentes. Marcados. Há falta de Homens – penso para mim mesma. Enquanto sorrio a ouvir Patrick Wolf: Oh no, not me, (…) But I still have to go / I’ ve got to go, so here I go / I’m going to run the risk of being free, no seu The Libertine.
Qual é o risco que percorremos na sede de liberdade? Talvez seja apenas, a condenação das sombras. Mas os vultos que se erguem na neblina de qualquer cidade, são mais envolventes do que a massa banal da plebe. Rasgar em gestos de sagacidade as morais, os condicionamentos cívicos, que qualquer cidadão que se preze, deve acatar na contemplação de um Estado manipulador.
Uma boa depressão, bem vivida, compreenda-se, pode ser extremamente proveitosa. A inclinação que dá vertigens, sobre o que fomos e o que seremos. É doloroso. Mas a dor é mestre. É louco. Mas talvez a loucura seja a porta de entrada para uma sanidade superior. Uma espécie de espelho em que nos analisamos e amaldiçoamos. Que nos oferece a verdade cruel sobre o que nos compõe. Dando uma visão mais alta sobre os demais.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Amar

Amor. As pessoas falam demasiado em Amor. Dizem vezes de mais, que amaram esta ou aquela pessoa. Pergunto-me se alguma terá de facto amado outra. Parece-me tudo uma velha dança, uma velha canção que de tantas vezes ser cantada, perde o sentido nas palavras que a constituem docemente. Ou se calhar sou eu, que sou simplesmente estranha. People are strange, when you are a strange, canta um Morrison renascido da minha adolescência. Pergunto-me seriamente se algum dia amei alguém, e ao faze-lo vem-me apenas um rosto a memória.

Recordo-me de dizer certa vez, a um rapazinho despido ao meu lado: saberás que amas uma mulher no dia que te sentires morrer no seu beijo, e desejares morrer assim, eternamente todos os dias da tua vida. É patética a forma como constantemente ouço as pessoas que amam desesperadamente outra, mesmo sabendo-se condenados a dizer mais tarde ou mais cedo que a odeiam, num ódio vazio do amor que jamais existiu. Só se pode odiar aquilo que um dia se amou, mas o ódio em si é apenas a intensidade de uma emoção que se mata, que se exorciza.

Confunde-se amor com paixão. Entre uma e outra, encontra-se um abismo de sensações e memórias, nunca percorrido na brevidade com que se tomam os compromissos. Paixão é o arrebatamento, é o desejo de posse, de domínio que nos desperta sobre a realidade em que imaginamos a outra pessoa. É suspeita, ciúme, traição em pequenos olhares lançados a outros homens. É a caçada selvagem em que se é presa ou caçador.

Só se pode amar o que está acima de nós; uma mulher que nos oprime pela sua beleza, pelo seu temperamento, pela sua alma, pela sua força de vontade, que se mostra despótica connosco, recorda-me Sacher-Masoch. Dou-lhe razão. Só amei o que é superior em mim. E nessa superioridade em que o reconheci amei-o e amo-o, como um deus desvelado num altar que o tempo não pode derrubar.

Todo o resto é o mar de emoções. E as emoções são apenas cavalos selvagens, indomáveis, incontroláveis, por quem me deixo levar sem medo. Na certeza que algo em mim despertará e me dirá, que só se pode viver ao sabor dos sentimentos na forma como nos precipitam nas pequenas mortes de nós mesmos.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Esquecimento

Toda a vida se desenrola num circulo abstracto de ideias e situações que esbarram em nos mesmos com a violência do metal contra a carne, recordando-nos de mais uma prova que ao passarmos nos fará reerguer na certeza absoluta do que fomos e de quem somos. Tu foste a minha prova, mais uma vez. Quebra-se o sentido, rasgam-se as emoções na frieza do raciocínio íngreme e pesaroso construído em madrugadas despidas de ti.
Chamas-te-me altiva com a crueldade de um insulto. E esqueceste-te que é altiva a forma como algumas mulheres se elevam do chão e quebram os agrilhões da sua dependência, da sua servidão. Não sou escrava. Nada em mim treme ao som das correntes que me prendem, apenas a constatação calculada da sua existência e inexistência no último golpe com que me liberto de ti, do teu cheiro e da impressão que imprimes em mim.
É apática a forma como te vejo agora. É indiferente, a constatação da tua existência feita de nadas que no sempre próprio fim são nadas. Condeno em mim tudo o que uma alguma vez vi em ti na ilusão da imagem que transmites aos que te rodeiam. É bom sentirmo-nos fascinados, mas o fascínio tem de nascer de uma fonte íngreme que nos dá vontade de precipitar sobre ele, mergulhar e morrer nele, a tua fonte é seca como a forma que vives. Tu que me ensinaste a viver não sabes viver nem morrer, no medo infantil como sobrevives na atenção que rendem aos teus pés. Iludido que é a ti que te dão atenção quando é apenas ao negro dos teus sapatos, do teu casaco e de toda a parafrenália que ornamenta o teu ego pateticamente masculino.
Na diferença dos anos que nos separam, ensinaste-me apenas que quando chegar a tua idade, jamais desejarei ser como tu. Viver da vida em goles largos de heresia, erguer-me no fio gélido da navalha onde os nossos sonhos se constroem e destroiem mas sempre com a audácia de um mundo inteiro aos meus pés. Sem medo, sem amarras, sem juras ou promessas de amor eterno. Só se pode amar quando se esta despido de amor. Entregar-se é algo profundo mas avassalador, e isso só é possível quando nós temos, quando sabemos quem somos, quando na certeza intensa do frio do punhal que nos atravessa o peito dizemos sim. De peito nu, no abismo de nós mesmos. É preciso como Nietzsche proferia em toques de insanidade, possuir a força das sete solidões para que nos compreendam. E no sangue em que revejo os meus irmãos repugno-te, como banal mortal.
À ti as entranhas do deserto despido de emoções, à ti o desprezo da humanidade vazia, à ti à minha libertação da vulgaridade da anatomia humana. De um mundo que sendo tão teu é o universo dos espelhos em que egos se transformam em máscaras inexpressivas da alienação que é sobreviver no sonho em que se pensa viver. Abençoados sejam os malditos que rasgam em si essa vida e bebem do cálice da morte o sangue dos abençoados. Seja eu digna de beber entre eles, no esquecimento absoluto de ti.