quarta-feira, 22 de agosto de 2007

O Orfeu no Paraíso


Da última estante da biblioteca do meu pai, um livro com título apelativo olha-me: Orfeu no Paraíso, de Luigi Santucci. Vencedor do prémio Campello em 1967. Folhei-o tentando encontrar nele algum interesse que me prendesse à sua leitura. Quando encontro esta frase: “Só acaba suicida quem não crê no seu passado, não quem não crê no seu futuro”. É uma doce contradição. A maioria das pessoas acredita que o suicida é o fulano sem esperança. Nu de sonhos e projectos. Mas como pode um homem racional ter esperança, quando está consciente das contrariedades e fragilidades do tempo que ainda não se escreveu? Alimentamo-nos dessa esperança, fermentados na utopia de que a imaginação é a visão da alma. A luz que penetra o desconhecido e o revela, amarrando-o a possibilidade do presente.
Concordo com Santucci. O suicida é o que despreza o seu passado. O sentido das suas raízes na alienação do seu presente. Preso a memórias e eternamente perdido na imortalidade da recordação. É doloroso sentir. Mas é mais penoso recordar o que se sentiu, o que se perdeu. Talvez a única fuga a esse jogo perpétuo, seja a morte. Mas já não estará morto aquele que recorda?