O meu tempo estudantil foi marcado por gostos e desgostos de todas as disciplinas que constituíram a minha formação académica. Salvo alguns arrufos que tive com determinados professores, de confrontos de opiniões, nunca metia em causa as matérias orgulhosamente leccionadas por eles.
Porém, essa tendência mudou há largos anos, depois de já estar formado. Descobri que uma das milhentas afirmações da cultura geral, mais especificamente dentro da área de história, está errada.
Aprendemos, como o leitor deve se lembrar, que uma das grandes invenções do homem, que mudou toda a história – e que ainda faz parte do nosso dia-a-dia – foi a criação, invenção ou descoberta da roda. Dizem, aliás, que essa foi a primeira manifestação do homem como ser com cabeça, digo, com inteligência. Mas, isto é totalmente falso, na minha opinião a grande invenção do homem, que ainda hoje o marca foi sem dúvida a Imbecilidade.
Aquela que os prende ao quotidiano fixo da inércia de pensar. Existir tornou-se ao longo dos tempos um mero instinto de sobrevivência, em que a alimentação, procriação e labuta se tornaram numa complexa rede de ligações cujo fim último se encerra no som oco da madeira do caixão a ranger pelo peso suportado de um corpo em putrefacção.
Talvez seja eu um utópico positivista arrancado ao pó do tempo de um século XIX, estranhamente parisiense, cujos deuses ou santos são os grandes pensadores, filósofos e escritores arrancados de todas Eras de uma História que estimo pelo seu impulso mutativo e transfigurador. Matem-se os anónimos e venerem-se os crânios, os neurónios dos que de facto, pensaram e nos imortalizaram com as suas teorias e desejos.
Ser só tem sentido se realmente os átomos que nós compõem se revelarem para além da sua biologia cronometrada de um mero corpo natural e mundano.
Infelizmente, Ser tornou-se em algo tão vulgar e ordinário que se resume ao acto continuo de nascer, fornicar e morrer sem que o imbecil dê conta disso mesmo. A vida do Homem é, à priori, uma imbecilidade. Não passa de um esboço inacabado de um artista desconhecido, ou mesmo da musica monocórdica de um pedinte lisboeta.
Questiono-me intrinsecamente o que esse anónimo artista pensará da sua obra quando finalizada na inutilidade dos sentidos que o levaram a desenha-la. Será ele tantas vezes descrito como um Ele, de E maiúsculo um ser assim tão grande? Não serão os superiores apenas capazes de produzir superioridades? Nós que somos tão estupidamente inferiores, como poderemos ser a sua imagem reflectida no espelho?
Como poderemos, nesta nossa vida estandardizada, representá-lo? Será que esta nossa vida banal, obtusa e finita poderá representar a essência de toda a criação?
Se afirmativo, concluímos que todo este ciclo colossal não passará de um embuste. Uma patranha tal, que nos leva a crer que o imbecil – ou o ser humano – se guia segundo uma obediência automática qual animal irracional. Em que o seu fim último nada mais é que a queda no esquecimento total. A alienação completa do que se poderia ter sido em todas essas potencialidades essenciais que nos tornam em obscuras promessas lançadas, por qualquer Deus absurdo, às teias do destino. Onde nos deixamos emaranhar e perder, qual labirinto de minotauro sem nunca termos a audácia de fazer a derradeira pergunta que a esfinge da morte nos impõem: Quem somos? Ou melhor, quem fomos? Terá tido a nossa vida qualquer sentido que nos eleve acima das miudezas que entranham a nossa quotidiana imbecilidade?
A esta questão rendemo-nos ao silêncio da incompreensão que nos move e molda nesta roda de vida e morte onde nos sacrificamos, não como deuses ou apostátas rebeldes, mas como simples e meros peões de um jogo onde como Sartre diria, os dados são lançados...
1 comentário:
Ergo-me para aplaudir tão sábias palavras. BRAVÌSSIMO!
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