quinta-feira, 3 de maio de 2007

Alienações Saudosistas.

Sempre fui alérgico a qualquer tipo de saudosismo. O peso da história é demasiadamente íngreme para que possa ser suportado sem se correr o risco de matar precocemente as possibilidades de um novo futuro. Não defendo a negação do que se foi, nem a apatia mórbida motivada por juízos unilaterais que nada devem ao rigor de Clio, simplesmente acredito qual Hamlet desesperado de que o que importa de facto, não é o que fizeram de nós mas sim o que nós fizemos com o que fizeram de nós.
É amorfo o cheiro do patriotismo cego enleado na obsoleta saudade romântica do que se gostaria de ter sido, na ilusão de que na realidade se foi algo de extraordinário. Um Quinto Império confundido com a crença num D. Sebastião que se ergue numa manhã de nevoeiro e apimentado por vénias a Reis sem coroa e sem perspectivas de trono, é nostálgico e ilógico.
Das capas demasiadamente brancas ornamentadas com cruzes de vermelho sanguinário que se passeiam em cerimónias anedóticas em antigos conventos e que esvoaçam na recordação demasiadamente romanceada de Cavaleiros Templários, guardo o riso sarcástico da inutilidade dos que querem reerguer um passado que mal conhecem. Das vozes em uníssono a cantarem ou a berrarem as palavras que compõem uma Grândola Vila Morena, numa madrugada de aniversário de um 25 de Abril, arquivo como um velho monge copista de qualquer Idade obscura, a memória do meu desdém pela libertação que se tornou a pálida alienação de uma democracia demasiado infantil para ser tomada com maturidade.
Gritos de “Viva a Liberdade! Viva o 25 de Abril!”ganham nos recantos mais íntimos do meu espírito a desconfiança das vozes que o proferem. Oh Liberdade valor Imperecível da História, geme Camus nos escombros da memória da minha adolescência alimentada pelo seu Homem Revoltado, e num ritmo alucinante descortino uma das minhas verdades: para se ser visceralmente livre é preciso ter-se a ousadia do assassinato ao silêncio conformista que nos condena em cada sopro de vida. Catalogamo-nos quantas vezes!, em murmúrios de tolerância como povo de brandos costumes. Fossemos antes um povo de fortes ideias tomadas não pelo sangue no gume rombo de uma espada imprestável mas antes na sagacidade de um espírito que se elevada para lá do passado. E desenterra da promessa de um futuro as linhas com que as parcas o tecem, num prenúncio de felicidade condigna.
Patriotismo não é bater no peito ou de braços erguidos para um céu artificial de estrelas psicadélicas, cânticos de libertação na amnésia de uma vodka de péssima qualidade. Nem é a beleza estética de bandeira na mão ou de um hino bem cantado, é antes a fome de se desejar mais. A acutilante vontade de transmutar ideais em realidades visíveis aos olhos que passam, e a heresia de as tomar em tragos de devaneio em cada momento das nossas existências tão individuais. Morrer em cada segundo, em cada palavra por paixão a um sonho que é mais que uma bruma do pensamento e nos cerca, nos sufoca na certeza absurda de que as nossas palavras não serão hinos futuros mas páginas de uma história que ainda não foi escrita ou lembrada.

E eu que sou o mais terreno dos idealistas brindo a vós! Mortos dos meus mortos, linhas do meu passado, para que do vosso sangue possa eu retirar a força dos heréticos.
Benditos sejam os despertos.

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