quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Alucinação das 6h da manhã

Há para cada mulher um único homem e para cada homem uma multiplicidade de mulheres. Talvez porque para a mulher os homens que por ela passam são resquícios do Homem, esse morto-vivo cujos restos mortais repousam em qualquer sepultura anónima e cujo espírito transgride o tempo e o espaço, na forma como se faz recordar nos traços específicos dos demais homens. Mas para os homens apenas na diversidade das mulheres se tornam capazes de compreender o que a Mulher já sabe: cada uma, nada mais é que um órgão essencial na anatomia perfeita d’Ela.
Tal é a teoria pouco racional que me atravessa o espírito enquanto me deixo adormecer. Meditar sobre as complexas ou superficiais relações humanas nunca foi passatempo que me preenchesse, mas tendo em conta os últimos acontecimentos da minha, até agora, pacata vida, sou puxada para esse corcel alucinado de teorias vazias. Talvez o meu amigo David T.P tenha razão e a minha vida de facto desse mesmo um péssimo filme indiano. Enfim…

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

...

São sete horas e um quarto e o sol começa a pôr-se, no fim de mais um dia saboreio o que morreu, apanhando do chão os seus restos mortais. Ontem o dia nasceu com sede de sangue, chegam-me notícias de gente que morreu. Todos eles novos, todos eles mais ou menos com a minha idade, todos eles perfeitos desconhecidos para mim. Ontem três amigos meus choraram a morte de amigos seus. Deveria sentir que a morte de um amigo de um amigo meu, é para ser chorada também por mim? São anónimos na forma como desconheço o seu rosto. Não sei recordar imagens que não preenchem a minha memória. Contra a dor deles não há em mim nada que os possa consolar. Quem pode consolar a dor dos que perdem? Não há nada que a silencie. Na vigília da noite deixei-me ficar à sombra das suas lamentações, na companhia de um cigarro e do vento gélido que entrava pelo meu quarto através da janela entreaberta.
Um pensamento bizarro atravessou-me a mente. Todos esses mortos gostavam de viver e beberam da vida em goles rápidos e vertiginosos, sempre a par das novidades do cinema, da música, da literatura. Não vão mais saborear novos acontecimentos, tudo o que a partir de agora será escrito será sem eles. Na sua ausência. Ao abandonarem esta peça teatral são espectros que nada devem ao desenrolar da vida que tanto os apaixonou.
Isso é estranho, quase incompreensível, quase insustentável. O mundo devia párar. Como uma contradição que põem em causa o movimento perpétuo do universo.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

O Orfeu no Paraíso


Da última estante da biblioteca do meu pai, um livro com título apelativo olha-me: Orfeu no Paraíso, de Luigi Santucci. Vencedor do prémio Campello em 1967. Folhei-o tentando encontrar nele algum interesse que me prendesse à sua leitura. Quando encontro esta frase: “Só acaba suicida quem não crê no seu passado, não quem não crê no seu futuro”. É uma doce contradição. A maioria das pessoas acredita que o suicida é o fulano sem esperança. Nu de sonhos e projectos. Mas como pode um homem racional ter esperança, quando está consciente das contrariedades e fragilidades do tempo que ainda não se escreveu? Alimentamo-nos dessa esperança, fermentados na utopia de que a imaginação é a visão da alma. A luz que penetra o desconhecido e o revela, amarrando-o a possibilidade do presente.
Concordo com Santucci. O suicida é o que despreza o seu passado. O sentido das suas raízes na alienação do seu presente. Preso a memórias e eternamente perdido na imortalidade da recordação. É doloroso sentir. Mas é mais penoso recordar o que se sentiu, o que se perdeu. Talvez a única fuga a esse jogo perpétuo, seja a morte. Mas já não estará morto aquele que recorda?

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Four Winds - Bright Eyes

Your class, your caste, your country, sect, your name or your tribe
There's people always dying trying to keep them alive
There's bodies decomposing in containers tonightIn an abandoned building where
Squatters made a mural of a Mexican girl
With fifteen cans of spray paint and a chemical swirl
She's standing in the ashes at the end of the world
Four winds blowing through her hair
But when great Satan's gone... the Whore of Babylon...
She just can't sustain the pressure where it's placed
She caves
The Bible's blind, the Torah's deaf, the Qur'ans mute
If you burn them all together you get close to the truth still
They're pouring over Sanskrit on the Ivy League moons
While shadows lengthen in the sun Cast all the school and meditation built to soften the times
And hold us at the center while the spiral unwindsIt's knocking over fences crossing property lines
Four winds, cry until it comes
And it's the sum of man
Slouching towards Bethlehem
A heart just can't contain all of that empty space It breaks.
It breaks. It breaks
Well I went back, I rented Cadillac, a company jet
Like a newly orphaned refugee retracing my steps
All the way to Cassadaga to commune with the dead
They said, "You'd better look alive"And I was off to old Dakota where a genocide sleeps
In the Black Hills, the Badlands, the calloused eastI buried my ballast, I made my peace
The four winds, leveling the pines
But when great Satan's gone... the Whore of Babylon...
She just can't remain with all that outer space She breaks. She breaks. She caves. She caves.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Anatomia da Queda



“Fulano tal está muito mal, está com uma depressão” – Já perdi a conta, às vezes, que ouvi esta frase. Sobre as mais diversas pessoas nas mais anedóticas situações. Por vezes, vejo os depressivos arrastarem-se pesarosamente, ar meio cadavérico, entre o meio das gentes indiferentes. Alguns pedem socorro na aflição da queda, outros deixam-se cair. Prefiro os segundos. São mais engraçados. Mas só se tornam interessantes ou não, na intensidade com que deixam morrer em si, cada traço de pequena humanidade.
Raramente encontro quem o faça. Atordoados com a possibilidade de ouvirem o seu crânio bater com força no abismo, agarram-se como pequenos parasitas as paredes do seu poço. Deixam-se apodrecer lá. Sem nunca chegarem ao estado cruel de putrefacção. A dignidade reside na capacidade de se viver o limbo e cair nos infernos. Com ousadia suficiente para depois se elevarem dele. Fortes. Diferentes. Marcados. Há falta de Homens – penso para mim mesma. Enquanto sorrio a ouvir Patrick Wolf: Oh no, not me, (…) But I still have to go / I’ ve got to go, so here I go / I’m going to run the risk of being free, no seu The Libertine.
Qual é o risco que percorremos na sede de liberdade? Talvez seja apenas, a condenação das sombras. Mas os vultos que se erguem na neblina de qualquer cidade, são mais envolventes do que a massa banal da plebe. Rasgar em gestos de sagacidade as morais, os condicionamentos cívicos, que qualquer cidadão que se preze, deve acatar na contemplação de um Estado manipulador.
Uma boa depressão, bem vivida, compreenda-se, pode ser extremamente proveitosa. A inclinação que dá vertigens, sobre o que fomos e o que seremos. É doloroso. Mas a dor é mestre. É louco. Mas talvez a loucura seja a porta de entrada para uma sanidade superior. Uma espécie de espelho em que nos analisamos e amaldiçoamos. Que nos oferece a verdade cruel sobre o que nos compõe. Dando uma visão mais alta sobre os demais.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Amar

Amor. As pessoas falam demasiado em Amor. Dizem vezes de mais, que amaram esta ou aquela pessoa. Pergunto-me se alguma terá de facto amado outra. Parece-me tudo uma velha dança, uma velha canção que de tantas vezes ser cantada, perde o sentido nas palavras que a constituem docemente. Ou se calhar sou eu, que sou simplesmente estranha. People are strange, when you are a strange, canta um Morrison renascido da minha adolescência. Pergunto-me seriamente se algum dia amei alguém, e ao faze-lo vem-me apenas um rosto a memória.

Recordo-me de dizer certa vez, a um rapazinho despido ao meu lado: saberás que amas uma mulher no dia que te sentires morrer no seu beijo, e desejares morrer assim, eternamente todos os dias da tua vida. É patética a forma como constantemente ouço as pessoas que amam desesperadamente outra, mesmo sabendo-se condenados a dizer mais tarde ou mais cedo que a odeiam, num ódio vazio do amor que jamais existiu. Só se pode odiar aquilo que um dia se amou, mas o ódio em si é apenas a intensidade de uma emoção que se mata, que se exorciza.

Confunde-se amor com paixão. Entre uma e outra, encontra-se um abismo de sensações e memórias, nunca percorrido na brevidade com que se tomam os compromissos. Paixão é o arrebatamento, é o desejo de posse, de domínio que nos desperta sobre a realidade em que imaginamos a outra pessoa. É suspeita, ciúme, traição em pequenos olhares lançados a outros homens. É a caçada selvagem em que se é presa ou caçador.

Só se pode amar o que está acima de nós; uma mulher que nos oprime pela sua beleza, pelo seu temperamento, pela sua alma, pela sua força de vontade, que se mostra despótica connosco, recorda-me Sacher-Masoch. Dou-lhe razão. Só amei o que é superior em mim. E nessa superioridade em que o reconheci amei-o e amo-o, como um deus desvelado num altar que o tempo não pode derrubar.

Todo o resto é o mar de emoções. E as emoções são apenas cavalos selvagens, indomáveis, incontroláveis, por quem me deixo levar sem medo. Na certeza que algo em mim despertará e me dirá, que só se pode viver ao sabor dos sentimentos na forma como nos precipitam nas pequenas mortes de nós mesmos.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Esquecimento

Toda a vida se desenrola num circulo abstracto de ideias e situações que esbarram em nos mesmos com a violência do metal contra a carne, recordando-nos de mais uma prova que ao passarmos nos fará reerguer na certeza absoluta do que fomos e de quem somos. Tu foste a minha prova, mais uma vez. Quebra-se o sentido, rasgam-se as emoções na frieza do raciocínio íngreme e pesaroso construído em madrugadas despidas de ti.
Chamas-te-me altiva com a crueldade de um insulto. E esqueceste-te que é altiva a forma como algumas mulheres se elevam do chão e quebram os agrilhões da sua dependência, da sua servidão. Não sou escrava. Nada em mim treme ao som das correntes que me prendem, apenas a constatação calculada da sua existência e inexistência no último golpe com que me liberto de ti, do teu cheiro e da impressão que imprimes em mim.
É apática a forma como te vejo agora. É indiferente, a constatação da tua existência feita de nadas que no sempre próprio fim são nadas. Condeno em mim tudo o que uma alguma vez vi em ti na ilusão da imagem que transmites aos que te rodeiam. É bom sentirmo-nos fascinados, mas o fascínio tem de nascer de uma fonte íngreme que nos dá vontade de precipitar sobre ele, mergulhar e morrer nele, a tua fonte é seca como a forma que vives. Tu que me ensinaste a viver não sabes viver nem morrer, no medo infantil como sobrevives na atenção que rendem aos teus pés. Iludido que é a ti que te dão atenção quando é apenas ao negro dos teus sapatos, do teu casaco e de toda a parafrenália que ornamenta o teu ego pateticamente masculino.
Na diferença dos anos que nos separam, ensinaste-me apenas que quando chegar a tua idade, jamais desejarei ser como tu. Viver da vida em goles largos de heresia, erguer-me no fio gélido da navalha onde os nossos sonhos se constroem e destroiem mas sempre com a audácia de um mundo inteiro aos meus pés. Sem medo, sem amarras, sem juras ou promessas de amor eterno. Só se pode amar quando se esta despido de amor. Entregar-se é algo profundo mas avassalador, e isso só é possível quando nós temos, quando sabemos quem somos, quando na certeza intensa do frio do punhal que nos atravessa o peito dizemos sim. De peito nu, no abismo de nós mesmos. É preciso como Nietzsche proferia em toques de insanidade, possuir a força das sete solidões para que nos compreendam. E no sangue em que revejo os meus irmãos repugno-te, como banal mortal.
À ti as entranhas do deserto despido de emoções, à ti o desprezo da humanidade vazia, à ti à minha libertação da vulgaridade da anatomia humana. De um mundo que sendo tão teu é o universo dos espelhos em que egos se transformam em máscaras inexpressivas da alienação que é sobreviver no sonho em que se pensa viver. Abençoados sejam os malditos que rasgam em si essa vida e bebem do cálice da morte o sangue dos abençoados. Seja eu digna de beber entre eles, no esquecimento absoluto de ti.

terça-feira, 29 de maio de 2007

Memória

Faz hoje três anos que morreste. Um dia disse que quando o meu peito se enchesse de ar pela última vez era tua, a imagem que eu veria pela sua incontestável beleza, pela sua inviolável força, pelo teu imperturbável encanto, e nada disso mudou. Tu que és a Rocha, sobre a qual me ergo e me redescubro em cada pedra do meu caminho, em cada dor, em cada esperança. Relembro-te mais uma vez, com a tua silhueta e a tua sombra gigantesca deitada sobre um campo de milho enquanto atiravas tiros a um Sol a nascer, roubando-lhe uma promessa de Luz que ofusca e aquece. Um Caçador não se esquece, no som que nos desperta de dentro de nós mesmos, num tiro de carabina em manhãs de verão.

É estranha a forma como nunca nos esquecemos de quem amamos. Não há um só dia em todos estes três anos que não me tenha lembrado de ti e sei que será assim para o resto da minha vida, e essa saudade que é tão nossa, é-me querida como o chão onde se estendem as minhas raízes. Quando eu era muito pequena gostava de andar de bicicleta e de abrir os braços enquanto descia aquele velho declínio de terra na mata, e sem querer passava com as mãos por arbustos cujas folhas eram feitas de picos que se enterravam na minha pele. Lembro-me de à noite me doerem as mãos e de tu me pegares ao colo, e com um sorriso enorme daquele que silencia a dor das crianças tirares com uma pinça cada um dos picos. E de me sussurrares ao ouvido: está a ver, menina, a dor é sempre passageira. Tu que tinhas ainda estilhaços de metal nas pernas, que te recordavam a Guerra e o teu patriotismo tão característico e inflamado em discursos que faziam tremer o granito das pedras, da velha quinta feita de heras.

O teu abraço quando eu caía desajeitada da escadaria, que me envolvia completamente na tua grandeza é uma memória que me ficara para sempre marcada em todos os pequenos pontos que constituem o que fui e o que sou. A tua voz rouca e profunda que contava histórias antigas dos que tinham vivido antes de nós e que mesmo assim viviam em nós, em cada gota do nosso sangue e dizias tu, em cada acto das nossas existências.
Nunca te esqueças de quem és. Nunca te esqueças dos que foram antes de ti. Honra-os como eles o fizeram por ti, mesmo antes de ti mesma.

Amar-te é uma honra de que nenhum ser humano é suficientemente digno, pela dignidade com que bebeste a vida em cada sopro de intensidade, em cada gesto de paixão pelo que acreditavas. Pelo que nós acreditamos. Ensinaste-me tantas coisas que na cegueira como corre a vida sem a vermos, tantas vezes esqueci, e tantas vezes me recordei, ao relembrar a imponência da tua simples presença. Perdoa-me ter sido tantas vezes negligente com a tua herança. Perdoa-me não ter-te honrado sempre, nos meus actos, nas minhas decisões, nos meus desejos. Tu que és o fim de tudo o que acredito, a peça final do que sonho ser na rectidão em que o teu sangue se prende ao meu.
Um beijo com amor,
B.L

terça-feira, 15 de maio de 2007

Fim

No princípio de mais um fim, tento recordar-me de que sangue são feitas as minhas raízes que me prendem a terra que me sustêm. Relembro-te mais uma vez, na devassidão dos meus castelos de areia levados pelo vento de uma nortada forte demais para morrer. Tu que eras o Caçador que ao som do tiro quente de uma carabina me despertavas em manhãs de Verão, roubando ao sol nascente a promessa de uma vida perfeita demais para ser vivida. A menina – chamavas-me tu, de sorriso rasgado – sabe, o que torna uma mulher numa verdadeira Mulher? Feito o aceno de cabeça negativo, segredavas-me ao ouvido: a dignidade. A forma puramente sentida com que ergue a cabeça mesmo quando tudo a sua volta se desmorona, a certeza visceral de que mesmo que o mundo acabasse amanhã o horizonte continuaria a ser o seu destino. Não por deus, mas por vontade de ir mais além do que as comuns mulherezinhas. Por saber que em si mesma correm as memórias de todas as mulheres e homens que antes de si sofreram e morreram na conquista absoluta do mundo em que se vive.
Como hoje as tuas palavras fazem sentido!, como hoje a tua voz ganha em mim o imperativo da solidão obstinada mas sincera. Viver sem sobreviver. Morrer por tudo em que nos corre. Com a ousadia do passo forte e rítmico à bater no chão, mesmo que seja apenas lama o que se sente por baixo dos pés, e de cabeça levantada, porque no fim, nós que somos tão nós, somos tudo. Ao sabor de Pessoa:

“És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjetividade objetiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.”

Hoje lembro-te com um sorriso igual ao que nascia nos teus lábios e todo o meu coração se enche da gratidão, aquela que só pode ser sentida pelos Homens mais altos.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

O Limbo e o Abismo

Tudo na vida é efémero, mais tarde ou mais cedo do que pensávamos ou desejávamos tudo se desvanece. Como um sonho que finda ao recordarmos a sensação de sentir de novo a nossa pele, o nosso corpo, as batidas do velho relógio no meio do peito ou o ar áspero e frio a percorrer-nos a alma. Nessa fracção de segundo em que vemos o que somos, num despertar matutino em que o peso do silêncio torna-se demasiadamente insuportável até para o mais simples dos homens.
É esse o momento em que sem queremos, quase que como se fosse um imperativo biológico da própria natureza, encaramos friamente a realidade do que somos. É terrível a sensação, sem hipótese de fuga ou sem a luz ténue de uma esperança no fundo de um abismo que reconhecemos como única morada. Ecoam as vozes nos ouvidos cansados de ouvir, na boca incapaz de proferir palavras de qualquer tipo ou beleza, e assim petrificamos nesse estado entre o tudo e o nada, num limbo em que tudo se esquece e tudo é duramente sentido até ao fim da sanidade quotidiana. Caminhamos entre as trevas e somos as trevas que formam as sombras de nós mesmo, e nesse jogo de luz erguemo-nos no fio de uma navalha onde sacrificamos virtudes e construímos altares a saudade.
Quando tudo parece estranhamente simples, poeticamente vulgar, obscenamente previsível. Pobres seres os que não controlam o destino que se desenha aos seus pés, infelizes crianças que vagueiam sempre sós no labirinto de si mesmos. Perpetuamente presos ao momento em que adormecem e acordam, no ritmo monocórdico da sua sobrevivência. Somos animais. Simples animais que nascem, vivem e morrem. Presos. Amordaçados a ideias, sonhos e utopias. Quebrar as correntes, destruir o que se pensa, o que sente, para que? O que resta no vazio da noite quando a Aurora ainda não chega? Morrer a cada noite, infinitamente…como mortais que sonham ser imortais e que sem saberem, o são no sangue que lhes corre e lhes conta em segredo: nada mais há que não medo, nada mais há que seja vida.

sábado, 5 de maio de 2007

O teu amigo M.

Para o amigo do meu melhor amigo, M.

Nunca fui capaz de te escrever, talvez porque todas as palavras que te pudesse dirigir me ficavam presas na garganta com a mesma força com que a corda prende o pescoço do enforcado, perdoa-me o meu barulhento silencio. Porque te escrevo então, eu agora, quando o dia vence a noite e a madrugada desperta das trevas que a embalaram qual mãe que alimenta o mais amado dos seus filhos? Talvez por solidão apimentada pelo desespero de uma saudade amarga que se prende a imortalidade dos nossos momentos. Ou quem sabe por fraqueza e arrependimento, refinado pela certeza de que a velocidade dos acontecimentos foi íngreme demais para que os pudesse deter ou desejasse deter.

Confesso-me perante ti, sombra das minhas sombras, porteiro dos Infernos onde me rendo e deleito, sejas tu testemunha não do que sou mas do que nunca fui e desejava ter sido. Guardião dos meus sonhos desfeitos e das minhas doces utopias infantis, hoje que o negro de um futuro incerto e indiferente se ergue a minha frente como o maior e mais temeroso dos juízes. Não tenho palavras que cheguem para ti, anseio apenas que sem nenhuma delas tu, que vês sejas capaz de ver através da minha carne a tristeza dos meus ossos e a intensidade dos meus desejos incontidos. Rogo-te para que me sirvas – não, não é servir, é apenas auxiliar, na minha última demanda enquanto viro esta página da minha vida e morte – de mensageiro e faças através do frio da noite chegar aos ouvidos de quem nos une o desejo da vontade que não posso concretizar.

Embala-o esta e todas as noites num eterno abraço quente, ampara-o com os teus braços como se fossem os meus e reveste a tua pele do meu cheiro. Faz da tua boca a minha e dos teus lábios os meus, canta-lhe a música que o adormece e conduz-lo com a tua luz até aos campos dos abençoados. Sempre que ele sinta qualquer tipo de dor, rouba-lha e dá-ma para que ele nunca mais verta uma única lágrima e jamais amaldiçoe seja o que for da sua existência. Sempre que a vida parecer quer abandona-lo, inflama-o com o meu sangue e dá-lhe a minha vitalidade, recheia-me de morte se necessário mas jamais permitas que ela se aproxime dele. Quando os seus pulmões tentarem encher-se de ar e o oxigénio não lhe chegar, dá-lhe o meu sopro e enterneci-o com a esperança de que nunca lhe faltara ar para respirar. Toma a tua vigília em cada noite a sua cabeceira e auxilia-o nos seus sonhos, para que nunca mais haja um pesadelo ou devaneio que o acorde e perturbe o seu merecido repouso. Que seja antes o meu sono povoado por mil demónios e que nunca mais tenha eu quietude. Por último, o mais importante: recorda-lhe a cada instante que eu estou aqui e que nunca deixei de estar, por que no fim que é eterno, é sempre mais importante o que nós une do que aquilo que nos separa.

Vai e aplica-te demónio!

Para J.B.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Teatro de Ilusões

No meu caminho de retorno do trabalho, quebrando a minha rotina, decidi ir fumar o meu cachimbo num pequeno café onde ocorrem verdadeiros solilóquios por vagabundos. Ao sentar-me, decidi colocar-me em postura de reflexão e observação perante toda uma bela praça que se estendia à minha frente.
Ao olhar para toda uma multidão que passava, ora me deparava com harmoniosas senhoras de saltos e sacos recheados, ora para uma criança que fogosamente comia um gelado como se o amanhã não existisse ou mesmo o desgraçado do sem abrigo que inutilmente mostrava a sua mão imunda a todos os que encontrava.
Nesse momento – e em companhia de todo este cenário – surgiu na minha cabeça uma pergunta que até hoje não obtive uma resposta: até que ponto toda esta praça – paradigma da humanidade - não passará de uma verdadeira passerelle, onde em vez de roupas se passam máscaras?
Fecho os olhos e permito-me navegar até outros cenários, liberto a minha imaginação das amarras quotidianas que lhe coloco para não me deixar perder nos labirintos de mim próprio. E qual dança perpetua vejo-me sentado num antigo teatro, sem o fausto dos grandes mas antes com aquela utilitariedade básica. Algumas cadeiras de madeira oferecem descanso aos seus espectadores enquanto a madeira de um palco velho range sobre o som apressado das pessoas que correm atrás dele mesmo antes de as cortinas de veludo gasto se abrirem. Não há qualquer paisagem reflectida na parede que sirva de contextualização a peça que assisto, apenas a tinta acinzentada das paredes desta sala, e como um louco acredito que a inexistência de beleza naquela sala apenas é pronuncio da sua veracidade: já não há beleza na fatalidade das vidas comuns.
Entram os actores, gente feita de gente, a velha que puxa a criança chorosa e suja pela rua do palco, o homem que fuma o seu cachimbo obscuro numa gabardine cinzenta e que parece contar os seus próprios passos qual não é o cântico monocórdico que exala da sua passagem. A mulher ou simples rapariga que deixa cair a mala no chão e que na sua preocupação de apanhar todos os seus pequenos objectos se esquece do vento que corre sobre ela fazendo esvoaçar a sua saia vermelha e dando uma estranha felicidade momentânea ao velho que se passeia atrás dela e cujos olhos observam atentamente a curvatura das suas coxas, flamejantes de desejo reprimido. No centro mas atrás de todos eles está uma estranha criança, que talvez pouco deva a infantilidade das crianças, que sorri olhando para todos os que passam e cujos olhos embatem nos meus, numa espécie de confidencia, numa promíscua certeza que também eu faço parte deste baile de mascaras e que a semelhança deles, também eu sou um mero actor da minha vida.
De repente reparo que a criança para quem estou a olhar é a minha própria pessoa. Lembro-me perfeitamente daquele dia, lembro-me perfeitamente da dor que me deu aquele dia imbecil e de como aprendi que a vida não passa de uma bela peça num teatro poeirento, onde os protagonistas somos nós próprios.
Voltando ao dia em questão, ali estava eu, atrás de toda aquela multidão, com o meu clarinete limpo e o meu laço ao pescoço arranjado esperava ansiosamente que todo aquele alvoroço acalmasse para poder subir ao palco e – orgulhosamente – mostrar à multidão e aos meus pais o meu progresso de mais de 3 anos de treinos. Porém, ao subir ao palco e ao percorrer com o olhar cada banco poento e cada pessoa aí sentada, invadiu-se em mim um sentimento de revolta e tristeza que até bastante tarde protelaram desaparecer: os meus pais não apareceram no meu recital. Talvez tivessem demasiados ocupados com questões empresariais que me passavam ao lado. Mas a sua promessa de não faltarem e a mentira que daí resultou marcou e moldou, em muito, toda a minha personalidade.

Nesse momento, todas as pessoas que estavam a olhar para mim enquanto tocava, transformaram-se na minha visão. Já não eram o meu desejado auditório mas um grupo de pessoas que eu desconhecia e ao mesmo tempo odiava. desprezava-os por uma simples razão: por serem humanos.
Seremos todos assim? Serão as marcas da nossa infância tão insuportavelmente ditadoras sobre nós mesmos, ao ponto de nos recriarem em cada recordação? Recordo cada uma das minhas cicatrizes, cada pedaço do meu passado nas suas ínfimas particularidades que me conferem esta angústia e este desprezo pelo Homem. Nietzsche teria sem dúvida razão é urgente é necessário ser-se superior a Humanidade em força, altura de alma e em desprezo!
Ergue-se em mim essa revolta tão antiga que a tomo como parte essencial do meu carácter subversivo, sou eu o mais normal dos homens e o mais lunático dos seus loucos. Permiti e alimentei a dicotomia entre a minha aparência e a minha verdadeira tendência, a loucura é a minha única forma de transcendência. E podia eu estar em maior sintonia com a restante Humanidade? Se há deuses, se existem santos ou mesmo pequenos demónios, todos eles deverão ser loucos na sua paixão pelo Homem.
Seja eu o pior dos demónios, o mais devorador dos Saturnos que arranca a carne aos ossos dos seus filhos, criaturas da minha mente, herdeiros dos caminhos obscuros da minha parca existência. Odeio-vos! Actores da vida banal. Queimem-se em todas as praças luminosas deste mundo de trevas, os espíritos dos vulgares. E que das suas ossadas sejam criadas novas igrejas, catedrais ao principio único da salvação pela alienação das sensações. Agora que me deixo domar pelas marés irregulares do meu temperamento sanguíneo, seja este cálice de vinho, o sangue onde o meu corpo se entrega aos devaneios da minha alma.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

O verdadeiro espiríto inventor do Homem

O meu tempo estudantil foi marcado por gostos e desgostos de todas as disciplinas que constituíram a minha formação académica. Salvo alguns arrufos que tive com determinados professores, de confrontos de opiniões, nunca metia em causa as matérias orgulhosamente leccionadas por eles.

Porém, essa tendência mudou há largos anos, depois de já estar formado. Descobri que uma das milhentas afirmações da cultura geral, mais especificamente dentro da área de história, está errada.

Aprendemos, como o leitor deve se lembrar, que uma das grandes invenções do homem, que mudou toda a história – e que ainda faz parte do nosso dia-a-dia – foi a criação, invenção ou descoberta da roda. Dizem, aliás, que essa foi a primeira manifestação do homem como ser com cabeça, digo, com inteligência. Mas, isto é totalmente falso, na minha opinião a grande invenção do homem, que ainda hoje o marca foi sem dúvida a Imbecilidade.

Aquela que os prende ao quotidiano fixo da inércia de pensar. Existir tornou-se ao longo dos tempos um mero instinto de sobrevivência, em que a alimentação, procriação e labuta se tornaram numa complexa rede de ligações cujo fim último se encerra no som oco da madeira do caixão a ranger pelo peso suportado de um corpo em putrefacção.

Talvez seja eu um utópico positivista arrancado ao pó do tempo de um século XIX, estranhamente parisiense, cujos deuses ou santos são os grandes pensadores, filósofos e escritores arrancados de todas Eras de uma História que estimo pelo seu impulso mutativo e transfigurador. Matem-se os anónimos e venerem-se os crânios, os neurónios dos que de facto, pensaram e nos imortalizaram com as suas teorias e desejos.

Ser só tem sentido se realmente os átomos que nós compõem se revelarem para além da sua biologia cronometrada de um mero corpo natural e mundano.

Infelizmente, Ser tornou-se em algo tão vulgar e ordinário que se resume ao acto continuo de nascer, fornicar e morrer sem que o imbecil dê conta disso mesmo. A vida do Homem é, à priori, uma imbecilidade. Não passa de um esboço inacabado de um artista desconhecido, ou mesmo da musica monocórdica de um pedinte lisboeta.

Questiono-me intrinsecamente o que esse anónimo artista pensará da sua obra quando finalizada na inutilidade dos sentidos que o levaram a desenha-la. Será ele tantas vezes descrito como um Ele, de E maiúsculo um ser assim tão grande? Não serão os superiores apenas capazes de produzir superioridades? Nós que somos tão estupidamente inferiores, como poderemos ser a sua imagem reflectida no espelho?

Como poderemos, nesta nossa vida estandardizada, representá-lo? Será que esta nossa vida banal, obtusa e finita poderá representar a essência de toda a criação?

Se afirmativo, concluímos que todo este ciclo colossal não passará de um embuste. Uma patranha tal, que nos leva a crer que o imbecil – ou o ser humano – se guia segundo uma obediência automática qual animal irracional. Em que o seu fim último nada mais é que a queda no esquecimento total. A alienação completa do que se poderia ter sido em todas essas potencialidades essenciais que nos tornam em obscuras promessas lançadas, por qualquer Deus absurdo, às teias do destino. Onde nos deixamos emaranhar e perder, qual labirinto de minotauro sem nunca termos a audácia de fazer a derradeira pergunta que a esfinge da morte nos impõem: Quem somos? Ou melhor, quem fomos? Terá tido a nossa vida qualquer sentido que nos eleve acima das miudezas que entranham a nossa quotidiana imbecilidade?

A esta questão rendemo-nos ao silêncio da incompreensão que nos move e molda nesta roda de vida e morte onde nos sacrificamos, não como deuses ou apostátas rebeldes, mas como simples e meros peões de um jogo onde como Sartre diria, os dados são lançados...
Talvez a última esperança seja o suícidio permeditado do que em nós é vazio e oco de sensações. Talvez quem sabe, a única resposta possivel aos anseios dos grandes espiritos seja o eterno exilio. Que se tornem cegos os que desejam ver mais longe, pois apenas no desprezo pelas vidas comuns se pode alcançar essa Terra Prometida digna apenas dos malditos e dos amaldiçoados.

Alienações Saudosistas.

Sempre fui alérgico a qualquer tipo de saudosismo. O peso da história é demasiadamente íngreme para que possa ser suportado sem se correr o risco de matar precocemente as possibilidades de um novo futuro. Não defendo a negação do que se foi, nem a apatia mórbida motivada por juízos unilaterais que nada devem ao rigor de Clio, simplesmente acredito qual Hamlet desesperado de que o que importa de facto, não é o que fizeram de nós mas sim o que nós fizemos com o que fizeram de nós.
É amorfo o cheiro do patriotismo cego enleado na obsoleta saudade romântica do que se gostaria de ter sido, na ilusão de que na realidade se foi algo de extraordinário. Um Quinto Império confundido com a crença num D. Sebastião que se ergue numa manhã de nevoeiro e apimentado por vénias a Reis sem coroa e sem perspectivas de trono, é nostálgico e ilógico.
Das capas demasiadamente brancas ornamentadas com cruzes de vermelho sanguinário que se passeiam em cerimónias anedóticas em antigos conventos e que esvoaçam na recordação demasiadamente romanceada de Cavaleiros Templários, guardo o riso sarcástico da inutilidade dos que querem reerguer um passado que mal conhecem. Das vozes em uníssono a cantarem ou a berrarem as palavras que compõem uma Grândola Vila Morena, numa madrugada de aniversário de um 25 de Abril, arquivo como um velho monge copista de qualquer Idade obscura, a memória do meu desdém pela libertação que se tornou a pálida alienação de uma democracia demasiado infantil para ser tomada com maturidade.
Gritos de “Viva a Liberdade! Viva o 25 de Abril!”ganham nos recantos mais íntimos do meu espírito a desconfiança das vozes que o proferem. Oh Liberdade valor Imperecível da História, geme Camus nos escombros da memória da minha adolescência alimentada pelo seu Homem Revoltado, e num ritmo alucinante descortino uma das minhas verdades: para se ser visceralmente livre é preciso ter-se a ousadia do assassinato ao silêncio conformista que nos condena em cada sopro de vida. Catalogamo-nos quantas vezes!, em murmúrios de tolerância como povo de brandos costumes. Fossemos antes um povo de fortes ideias tomadas não pelo sangue no gume rombo de uma espada imprestável mas antes na sagacidade de um espírito que se elevada para lá do passado. E desenterra da promessa de um futuro as linhas com que as parcas o tecem, num prenúncio de felicidade condigna.
Patriotismo não é bater no peito ou de braços erguidos para um céu artificial de estrelas psicadélicas, cânticos de libertação na amnésia de uma vodka de péssima qualidade. Nem é a beleza estética de bandeira na mão ou de um hino bem cantado, é antes a fome de se desejar mais. A acutilante vontade de transmutar ideais em realidades visíveis aos olhos que passam, e a heresia de as tomar em tragos de devaneio em cada momento das nossas existências tão individuais. Morrer em cada segundo, em cada palavra por paixão a um sonho que é mais que uma bruma do pensamento e nos cerca, nos sufoca na certeza absurda de que as nossas palavras não serão hinos futuros mas páginas de uma história que ainda não foi escrita ou lembrada.

E eu que sou o mais terreno dos idealistas brindo a vós! Mortos dos meus mortos, linhas do meu passado, para que do vosso sangue possa eu retirar a força dos heréticos.
Benditos sejam os despertos.