sábado, 5 de maio de 2007

O teu amigo M.

Para o amigo do meu melhor amigo, M.

Nunca fui capaz de te escrever, talvez porque todas as palavras que te pudesse dirigir me ficavam presas na garganta com a mesma força com que a corda prende o pescoço do enforcado, perdoa-me o meu barulhento silencio. Porque te escrevo então, eu agora, quando o dia vence a noite e a madrugada desperta das trevas que a embalaram qual mãe que alimenta o mais amado dos seus filhos? Talvez por solidão apimentada pelo desespero de uma saudade amarga que se prende a imortalidade dos nossos momentos. Ou quem sabe por fraqueza e arrependimento, refinado pela certeza de que a velocidade dos acontecimentos foi íngreme demais para que os pudesse deter ou desejasse deter.

Confesso-me perante ti, sombra das minhas sombras, porteiro dos Infernos onde me rendo e deleito, sejas tu testemunha não do que sou mas do que nunca fui e desejava ter sido. Guardião dos meus sonhos desfeitos e das minhas doces utopias infantis, hoje que o negro de um futuro incerto e indiferente se ergue a minha frente como o maior e mais temeroso dos juízes. Não tenho palavras que cheguem para ti, anseio apenas que sem nenhuma delas tu, que vês sejas capaz de ver através da minha carne a tristeza dos meus ossos e a intensidade dos meus desejos incontidos. Rogo-te para que me sirvas – não, não é servir, é apenas auxiliar, na minha última demanda enquanto viro esta página da minha vida e morte – de mensageiro e faças através do frio da noite chegar aos ouvidos de quem nos une o desejo da vontade que não posso concretizar.

Embala-o esta e todas as noites num eterno abraço quente, ampara-o com os teus braços como se fossem os meus e reveste a tua pele do meu cheiro. Faz da tua boca a minha e dos teus lábios os meus, canta-lhe a música que o adormece e conduz-lo com a tua luz até aos campos dos abençoados. Sempre que ele sinta qualquer tipo de dor, rouba-lha e dá-ma para que ele nunca mais verta uma única lágrima e jamais amaldiçoe seja o que for da sua existência. Sempre que a vida parecer quer abandona-lo, inflama-o com o meu sangue e dá-lhe a minha vitalidade, recheia-me de morte se necessário mas jamais permitas que ela se aproxime dele. Quando os seus pulmões tentarem encher-se de ar e o oxigénio não lhe chegar, dá-lhe o meu sopro e enterneci-o com a esperança de que nunca lhe faltara ar para respirar. Toma a tua vigília em cada noite a sua cabeceira e auxilia-o nos seus sonhos, para que nunca mais haja um pesadelo ou devaneio que o acorde e perturbe o seu merecido repouso. Que seja antes o meu sono povoado por mil demónios e que nunca mais tenha eu quietude. Por último, o mais importante: recorda-lhe a cada instante que eu estou aqui e que nunca deixei de estar, por que no fim que é eterno, é sempre mais importante o que nós une do que aquilo que nos separa.

Vai e aplica-te demónio!

Para J.B.

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