Para o amigo do meu melhor amigo, M.
Nunca fui capaz de te escrever, talvez porque todas as palavras que te pudesse dirigir me ficavam presas na garganta com a mesma força com que a corda prende o pescoço do enforcado, perdoa-me o meu barulhento silencio. Porque te escrevo então, eu agora, quando o dia vence a noite e a madrugada desperta das trevas que a embalaram qual mãe que alimenta o mais amado dos seus filhos? Talvez por solidão apimentada pelo desespero de uma saudade amarga que se prende a imortalidade dos nossos momentos. Ou quem sabe por fraqueza e arrependimento, refinado pela certeza de que a velocidade dos acontecimentos foi íngreme demais para que os pudesse deter ou desejasse deter.
Nunca fui capaz de te escrever, talvez porque todas as palavras que te pudesse dirigir me ficavam presas na garganta com a mesma força com que a corda prende o pescoço do enforcado, perdoa-me o meu barulhento silencio. Porque te escrevo então, eu agora, quando o dia vence a noite e a madrugada desperta das trevas que a embalaram qual mãe que alimenta o mais amado dos seus filhos? Talvez por solidão apimentada pelo desespero de uma saudade amarga que se prende a imortalidade dos nossos momentos. Ou quem sabe por fraqueza e arrependimento, refinado pela certeza de que a velocidade dos acontecimentos foi íngreme demais para que os pudesse deter ou desejasse deter.
Confesso-me perante ti, sombra das minhas sombras, porteiro dos Infernos onde me rendo e deleito, sejas tu testemunha não do que sou mas do que nunca fui e desejava ter sido. Guardião dos meus sonhos desfeitos e das minhas doces utopias infantis, hoje que o negro de um futuro incerto e indiferente se ergue a minha frente como o maior e mais temeroso dos juízes. Não tenho palavras que cheguem para ti, anseio apenas que sem nenhuma delas tu, que vês sejas capaz de ver através da minha carne a tristeza dos meus ossos e a intensidade dos meus desejos incontidos. Rogo-te para que me sirvas – não, não é servir, é apenas auxiliar, na minha última demanda enquanto viro esta página da minha vida e morte – de mensageiro e faças através do frio da noite chegar aos ouvidos de quem nos une o desejo da vontade que não posso concretizar.
Embala-o esta e todas as noites num eterno abraço quente, ampara-o com os teus braços como se fossem os meus e reveste a tua pele do meu cheiro. Faz da tua boca a minha e dos teus lábios os meus, canta-lhe a música que o adormece e conduz-lo com a tua luz até aos campos dos abençoados. Sempre que ele sinta qualquer tipo de dor, rouba-lha e dá-ma para que ele nunca mais verta uma única lágrima e jamais amaldiçoe seja o que for da sua existência. Sempre que a vida parecer quer abandona-lo, inflama-o com o meu sangue e dá-lhe a minha vitalidade, recheia-me de morte se necessário mas jamais permitas que ela se aproxime dele. Quando os seus pulmões tentarem encher-se de ar e o oxigénio não lhe chegar, dá-lhe o meu sopro e enterneci-o com a esperança de que nunca lhe faltara ar para respirar. Toma a tua vigília em cada noite a sua cabeceira e auxilia-o nos seus sonhos, para que nunca mais haja um pesadelo ou devaneio que o acorde e perturbe o seu merecido repouso. Que seja antes o meu sono povoado por mil demónios e que nunca mais tenha eu quietude. Por último, o mais importante: recorda-lhe a cada instante que eu estou aqui e que nunca deixei de estar, por que no fim que é eterno, é sempre mais importante o que nós une do que aquilo que nos separa.
Vai e aplica-te demónio!
Para J.B.
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