quarta-feira, 19 de setembro de 2007

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São sete horas e um quarto e o sol começa a pôr-se, no fim de mais um dia saboreio o que morreu, apanhando do chão os seus restos mortais. Ontem o dia nasceu com sede de sangue, chegam-me notícias de gente que morreu. Todos eles novos, todos eles mais ou menos com a minha idade, todos eles perfeitos desconhecidos para mim. Ontem três amigos meus choraram a morte de amigos seus. Deveria sentir que a morte de um amigo de um amigo meu, é para ser chorada também por mim? São anónimos na forma como desconheço o seu rosto. Não sei recordar imagens que não preenchem a minha memória. Contra a dor deles não há em mim nada que os possa consolar. Quem pode consolar a dor dos que perdem? Não há nada que a silencie. Na vigília da noite deixei-me ficar à sombra das suas lamentações, na companhia de um cigarro e do vento gélido que entrava pelo meu quarto através da janela entreaberta.
Um pensamento bizarro atravessou-me a mente. Todos esses mortos gostavam de viver e beberam da vida em goles rápidos e vertiginosos, sempre a par das novidades do cinema, da música, da literatura. Não vão mais saborear novos acontecimentos, tudo o que a partir de agora será escrito será sem eles. Na sua ausência. Ao abandonarem esta peça teatral são espectros que nada devem ao desenrolar da vida que tanto os apaixonou.
Isso é estranho, quase incompreensível, quase insustentável. O mundo devia párar. Como uma contradição que põem em causa o movimento perpétuo do universo.

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