Amor. As pessoas falam demasiado em Amor. Dizem vezes de mais, que amaram esta ou aquela pessoa. Pergunto-me se alguma terá de facto amado outra. Parece-me tudo uma velha dança, uma velha canção que de tantas vezes ser cantada, perde o sentido nas palavras que a constituem docemente. Ou se calhar sou eu, que sou simplesmente estranha. People are strange, when you are a strange, canta um Morrison renascido da minha adolescência. Pergunto-me seriamente se algum dia amei alguém, e ao faze-lo vem-me apenas um rosto a memória.
Recordo-me de dizer certa vez, a um rapazinho despido ao meu lado: saberás que amas uma mulher no dia que te sentires morrer no seu beijo, e desejares morrer assim, eternamente todos os dias da tua vida. É patética a forma como constantemente ouço as pessoas que amam desesperadamente outra, mesmo sabendo-se condenados a dizer mais tarde ou mais cedo que a odeiam, num ódio vazio do amor que jamais existiu. Só se pode odiar aquilo que um dia se amou, mas o ódio em si é apenas a intensidade de uma emoção que se mata, que se exorciza.
Confunde-se amor com paixão. Entre uma e outra, encontra-se um abismo de sensações e memórias, nunca percorrido na brevidade com que se tomam os compromissos. Paixão é o arrebatamento, é o desejo de posse, de domínio que nos desperta sobre a realidade em que imaginamos a outra pessoa. É suspeita, ciúme, traição em pequenos olhares lançados a outros homens. É a caçada selvagem em que se é presa ou caçador.
Só se pode amar o que está acima de nós; uma mulher que nos oprime pela sua beleza, pelo seu temperamento, pela sua alma, pela sua força de vontade, que se mostra despótica connosco, recorda-me Sacher-Masoch. Dou-lhe razão. Só amei o que é superior em mim. E nessa superioridade em que o reconheci amei-o e amo-o, como um deus desvelado num altar que o tempo não pode derrubar.
Todo o resto é o mar de emoções. E as emoções são apenas cavalos selvagens, indomáveis, incontroláveis, por quem me deixo levar sem medo. Na certeza que algo em mim despertará e me dirá, que só se pode viver ao sabor dos sentimentos na forma como nos precipitam nas pequenas mortes de nós mesmos.
2 comentários:
Amei a súbtil e intensa forma de escrita onde partilhas e revelas com sapiência...a mais forte das leis universais
"Só se pode amar o que está acima de nós; uma mulher que nos oprime pela sua beleza, pelo seu temperamento, pela sua alma, pela sua força de vontade, que se mostra despótica connosco"
acho que nunca amei ninguém porque amo demasiado, tenho demasiada paixão súbita. achas isso possivel? e por esta razão, não mereço eu ser amado? o amor é benigno e paciente mas..o que acalma as nossas libidos?
Enviar um comentário